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Shopee começou a cobrar multa? Entenda o novo sistema de pontos de penalidade e quanto você pode perder

Existe uma mudança no funcionamento da Shopee que a maioria dos vendedores descobriu da pior forma possível: quando o dinheiro já tinha sido descontado da conta. Não foi um e-mail explicativo. Não foi um aviso em destaque no painel. Foi uma cobrança automática, silenciosa, embasada num sistema de pontos que entrou em vigor em 2024 e que transformou o regime de punições da plataforma de algo previsível em algo com impacto financeiro direto e imediato.

Até 2023, o modelo era simples, onde infração gerava aviso, reincidência gerava suspensão. Era ruim, mas havia uma lógica clara. O novo sistema é diferente. Cada infração gera pontos, os pontos se acumulam por semana e, ao atingir determinados limiares, o sistema aciona cobranças financeiras progressivas, debitadas automaticamente da conta do vendedor, sem espaço para contestação imediata.

Como o sistema de pontos funciona na prática

A lógica é escalonada. Infrações são classificadas por gravidade e geram diferentes quantidades de pontos. Uma cobrança de frete não informada ao consumidor vale 10 pontos, considerada infração crítica porque configura, na visão da plataforma, uma enganação direta ao cliente. Um atraso na postagem vale 8 pontos. Cancelamento injustificado de pedido após pagamento vale 5. Falta de resposta ao cliente em até 24 horas vale 5. Informação incompleta no anúncio vale 3. Estoque desatualizado que gera cancelamento vale 2.

Individualmente, cada número parece pequeno. O problema é o acúmulo semanal. Um vendedor que tem um problema de frete na segunda, demora para responder um cliente na quarta e atrasa uma postagem na sexta encerrou a semana com 23 pontos, sem ter feito nada que parecesse grave em cada situação isolada. Se na semana seguinte houver mais duas ocorrências de atraso e um cancelamento, chegou a 36 pontos. Na semana subsequente, uma notificação: cobrança de R$ 800 debitada automaticamente.

Os valores crescem conforme a faixa: de 30 a 40 pontos, R$ 500. De 40 a 50 pontos, R$ 800. De 50 a 60 pontos, R$ 1.200. Quem chega a 50 pontos em uma semana pode receber cobrança superior a R$ 2.000, e o dinheiro sai da conta antes de qualquer discussão.

O problema jurídico: cobrança sem informação prévia adequada

Do ponto de vista do Direito do Consumidor e do Direito Digital, a prática levanta questões sérias. O Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 46, é claro: contratos que não foram adequadamente apresentados ao consumidor antes da contratação não obrigam. O art. 54 do mesmo diploma exige que cláusulas limitativas de direito sejam redigidas com destaque e clareza.

No caso dos vendedores da Shopee, a relação jurídica com a plataforma é regulada pelos termos de uso, que formam um contrato de adesão. Quando as regras sobre pontos e cobranças estão enterradas em dezenas de seções de regulamento, sem comunicação proativa e sem destaque no momento da aplicação da penalidade, há um argumento legítimo de que o vendedor não foi informado de forma adequada sobre as condições que condicionam a cobrança.

A jurisprudência sobre contratos de marketplace ainda está em consolidação no Brasil, mas há precedentes relevantes que reconhecem a abusividade de cláusulas que permitem débito automático sem notificação prévia clara, especialmente em contratos com micro e pequenos empreendedores que dependem da plataforma como principal canal de vendas.

O que fazer se a cobrança já aconteceu

O primeiro caminho é administrativo: abrir ticket formal junto à Shopee contestando a cobrança, com a descrição detalhada de cada ponto que gerou a penalidade e, quando possível, elementos que demonstrem que a infração foi involuntária, que o problema foi corrigido ou que o vendedor não foi adequadamente informado sobre as consequências.

A taxa de sucesso dessa via é baixa (em torno de 20% nos casos relatados por vendedores), mas o registro da contestação é importante por outro motivo: ele documenta a boa-fé do vendedor e a tentativa de resolução pela via amigável, o que é relevante se o caso evoluir para disputa judicial.

Quando a contestação interna não resolve, há duas instâncias paralelas disponíveis. A primeira é o Procon, uma reclamação formalizada ali cria registro oficial e frequentemente gera resposta mais substancial da plataforma do que o suporte convencional. A segunda é a via judicial: tanto nos Juizados Especiais Cíveis (para valores até 40 salários mínimos) quanto em ação ordinária, é possível discutir a abusividade da cobrança, a ausência de informação prévia adequada e o ressarcimento dos valores descontados indevidamente.

Há casos concretos de vendedores que obtiveram a devolução de multas cobradas pela plataforma por meio de ação judicial, com fundamento na falta de transparência nos termos de uso e na caracterização da cobrança como cláusula abusiva em contrato de adesão.

Como se proteger antes que o problema aconteça

A primeira medida é o monitoramento semanal da seção “Desempenho da Loja” no painel da Shopee. Os pontos estão visíveis ali; o problema é que a maioria dos vendedores não entra nessa seção até receber uma notificação. Entrar toda semana e verificar a pontuação acumulada permite agir antes de cruzar os limiares de cobrança.

A segunda é a padronização do atendimento ao cliente. As infrações mais frequentes, atraso na postagem, falta de resposta no chat, cobrança de frete não informada, são majoritariamente evitáveis com processo bem definido. Estabelecer um prazo interno de resposta no chat inferior ao limite da plataforma (responder em até 2 horas, não em até 24), manter a disponibilidade de estoque atualizada diariamente e postar os pedidos com margem de segurança em relação ao prazo contratado são práticas que reduzem drasticamente o risco de acúmulo de pontos.

A terceira, e talvez a mais importante para quem já tem volume relevante de vendas, é conhecer os termos de uso da plataforma, especialmente as seções sobre penalidades e cobranças, antes que eles se tornem um problema prático. Esse conhecimento, aliado a orientação jurídica preventiva, é o que permite contestar cobranças com fundamento quando elas forem injustas.

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